AS AMEAÇAS RONDAM O NOVO MUNDO DIGITAL | ENTREVISTA CARLA RAHAL

O mundo do amanhã é fascinante. Nossos avatares percorrerão ambientes que unem mundo físico e virtual participando de shows, fazendo compras e estudado. Poderemos realizar operações financeiras independentemente dos reguladores tradicionais e médicos conduzirão cirurgias complexas remotamente.

Mas, isso tudo também será a porta de entrada para ameaças que poderão custar vida, dinheiro e a nossa paz. Não, isso não é uma ameaça. Já está acontecendo. Onde há dinheiro e oportunidades de controle de pessoas, nações e pessoas, existe o risco iminente de ciberataques.

“Não existe segurança perfeita nem ataques que não podem ser bloqueados, já que a tecnologia é a mesma para os dois flancos”, aponta Raul Colcher, membro do Instituto dos Engenheiros Eletrônicos e Eletricistas (IEEE), maior organização técnico-profissional do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade, e sócio da Questera Consulting.

Não é à toa que no discurso dos grandes provedores globais de tecnologia, o tema da cibersegurança anda lado a lado de Metaverso, NFTs (tokens não fungíveis), DeFi (finanças descentralizadas), Inteligência Artificial e Internet das Coisas (IoT). Nos últimos tempos, os ataques ao setor de manufatura ultrapassaram os voltados aos serviços financeiros. Ainda assim, o interesse dos hackers às empresas Web3 – próxima versão da web tem como foco a descentralização do conteúdo – especialmente as de exchanges de criptomoedas e finanças descentralizadas, cresce rapidamente.

Um destes exemplos aconteceu bem recentemente. A Yuga Labs, responsável pelos ativos da Bored Ape Yatch Club, coleção de NFT avaliada em R$ 5 bilhões, sofreu um ataque hacker que gerou um prejuízo de R$ 15 milhões em NFTs. No total, as perdas devem chegar a R$ 64 milhões. De acordo com a empresa, o ataque ocorreu na conta de Instagram da coleção.

Em 2020, por exemplo, o mercado de NFT cresceu quase 300% em relação a 2019 e atualmente suas negociações ultrapassam US$ 300 milhões em volume de transações. Como esperado, essa combinação de fatores despertou o interesse dos cibercriminosos, assim como aconteceu com as criptomoedas.

Para comprar, vender ou armazenar um NFT você precisa de uma carteira digital. Manter essas carteiras e o uso de seus sistemas associados seguros é uma das questões que mais gera preocupação em relação à proteção desses ativos criptográficos.

“No caso de alguém tentar roubar uma obra de arte física, deve violar a segurança física do museu que a hospeda, enquanto para roubar um ativo digital é necessário violar a segurança do sistema em que ele está e de qualquer outro que esteja relacionado ao ativo”, explica o chefe do Laboratório de Pesquisa da ESET na América Latina, Camilo Gutiérrez.

O gestor da empresa, especializada na detecção proativa de ameaças, comenta que o aumento dos ataques é cada vez mais frequente devido ao maior interesse dos invasores em se apropriar dos ativos criptográficos.

“Os cibercriminosos são inovadores e sempre encontram diferentes estratégias para atacar. O mais importante é estar atento e desconfiar de qualquer coisa que seja boa demais para ser verdade. O ceticismo pode evitar uma grande dor de cabeça”, reforça Gutiérrez.

Como prosseguir a vida neste cenário aparentemente assustador e de ficção, mas altamente promissor para a construção de um ambiente mais seguro? O primeiro fator é entender que o humano ainda é o elo mais fraco.

Os ciberatacantes se movem muito rapidamente, e, apesar de as organizações precisarem se preparar para antever invasões e se agirem rapidamente caso aconteçam, o tema da segurança não deve ser uma responsabilidade apenas de um departamento das empresas, mas uma conscientização coletiva.

O professor da Singularity University, Ricardo Cavallini, avalia que existe uma curva de aprendizado. Pessoas, empresas e governos estão aprendendo a lidar com todo tipo de ataque, dos golpes mais simples que aparecem todos os dias no Instagram e Whatsapp a questões mais complexas como a guerra cibernética entre países e a nova geração de ameaças do mundo descentralizado.

“Temos quase 30 anos de internet e ainda tem gente usando senhas bobas. Do outro lado, muitas pessoas tomarão cuidados e se proteger melhor, como já fazemos hoje. Uma parte considerável também buscará uma desconexão, mas parcial. Porém acredito que esse movimento terá muito mais relação com saúde mental e produtividade do que com insegurança ou medo”, conclui o especialista da Singularity University.

* Colaboração Carlos Müller Villela

E se o seu avatar cometer um crime no Metaverso?

O Metaverso representa a expansão do mundo físico que habitamos, uma junção entre a realidade física e digital, que se tornará cada vez mais real nos próximos anos. Entretanto, você já parou para pensar nos crimes que poderão ser praticados neste ambiente?

Crimes financeiros, econômicos, fraudes de várias naturezas, crimes contra a honra, assédio moral e sexual, racismo e preconceitos, omissão de socorro, crimes de natureza trabalhista, além daqueles que podem ser praticados pelo avatar podem incidir no Metaverso.

“Não se discute o caráter contemporâneo desta ambiente e a possibilidade de avanços e facilidades em vários setores do mercado como varejo, mercado financeiro, incluindo as criptomoedas. Contudo, há dúvidas quanto aos aspectos jurídicos desta interação e a segurança da informação, principalmente no campo penal”, analisa a sócia de Viseu Advogados e mestre e doutora em Direito Penal pela PUC/SP, Carla Rahal Benedetti.

Ela cita um fato peculiar ocorrido em uma destas interações virtuais e que vem sendo discutido no cenário jurídico mundial. Em um teste da plataforma Horizon Words, desenvolvida pelo Facebook, um avatar feminino disse ter sido “apalpada” por outro, denunciando, inclusive, outros usuários porque não lhe ajudaram quando o fato ocorreu.

Para minimizar o dano de imagem causado, Marck Zuckerberg criou, na plataforma Horizon Words, uma ferramenta de distanciamento entre os avatares. Sim, o comportamento ético dos avatares é apenas um exemplo de temas que passarão a fazer parte no nosso dia a dia.

Carla, que é especialista em Crimes Eletrônicos e Crimes Econômicos pela UCLM, na Espanha, comenta que é importante o usuário ter em mente que, ao se entrar em uma plataforma virtual, haverá exposição de seus dados, assim como ocorre em qualquer plataforma de internet que utilizamos hoje em dia.

“Sendo o Metaverso mais um ambiente virtual que se apresenta, onde as pessoas podem se relacionar, adquirir produtos, entretenimentos, os aspectos criminais, sob nossa ótica, devem incidir e serem aplicados da mesma maneira em que os são nas redes sociais, e-commerce e todas as plataformas digitais que, virtualmente, possibilitam as relações humanas sociais e comerciais”, relata.

E com um fator adicional muito importante: a presença da pessoa como avatar. Ainda que supostamente, há uma representatividade física ao movimento virtual do avatar. E também existe a possibilidade da criação de um avatar completamente diferente da pessoa que está por detrás dele, transmudando se o avatar, neste caso, em autor mediato.

Isso porque, o Metaverso pressupõe uma identificação digital da pessoa, dotada de direitos e obrigações. Assim, os dados do avatar, que são bonecos virtuais customizados em 3D, afetam não apenas a privacidade, mas a transparência da relação entre os avatares e o ambiente do Metaverso, já que pode ser perfeitamente possível a prática de fraude.

Para ela, trata-se de mais uma ferramenta de interação entre pessoas físicas e jurídicas, nacionais, estrangeiras ou transnacionais, que de um modo virtual peculiar, a identidade é materializada nos avatares e traz uma realidade sensorial que nem sempre será verdadeira.

“O futuro dirá ser necessário ou não uma regulamentação específica para o Metaverso, embora entendamos que sim, para maior efetividade e segurança nas interações vividas pelos avatares”, aponta.

Publicado por Jornal do Comércio

 


POR CARLA RAHAL

Penal Empresarial

(11) 3185-0150

crahal@viseu.com.br

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